Conto: Sonhe Sempre Comigo – final

por Adriano Siqueira

15h20min. – No hospital, onde a vítima esta internada.

O quarto se acha vigiado por agentes da CIA e da polícia local, deixando-me, apenas, a possibilidade de entrar pela janela, algo relativamente fácil. Estou ali para matar um inocente em coma. Não era bem o que eu queria, na minha ficha de espião. Mas era minha missão. O homem estava praticamente amarrado, com tantos aparelhos em sua volta. Era gordo e careca. Jamais chegou a ter uma vida parecida com a minha. Olhei-o bem perto e o chamei de pobre coitado.

Jéssica abre a porta do armário e aponta a uma arma para a minha cabeça.

– Largue a arma, Jonas.

Joguei a arma no chão e disse-lhe:

– Jéssica, não se meta.

– Papo furado, Jonas. Você é quem não deve se meter. Isso poderá acabar com o nosso mundo. Não entende? Se você matá-lo, jamais nos veremos de novo. Você morre, eu morro, e nada mais será o mesmo.

– Mas de que diabo está falando?

Ela chega perto do caminhoneiro, apontando a arma pra mim.

– Ele é mais do que parece. Ele é escritor, gosta de contar histórias para as pessoas. Ele não é casado, mas é graças a esta solidão, que se dedica a fazer boas histórias.

– Como o conhece tão bem?

– Estou falando disso.

Ela aperta a agulha do soro que está no braço do caminhoneiro, e eu sinto tudo. Sinto uma dor no braço tão grande, que caio no chão.

– Pare com isso. Pare, seja lá o que estiver fazendo.

– Você entende o que estou falando? Sentiu a verdade.

– O caminhão, o cachorro na estrada. Droga. não consegui controlar o caminhão. Mas do que estou falando? Não… não. Não quero acreditar. Eu sou bonito agora, sou o maior espião do mundo… sou…

– Um sonho. – disse Jéssica me abraçando. – Todos somos. Criados por este homem, que você diz ser um pobre coitado, entende? Se você matá-lo, estará matando a todos nós, pois estamos dentro dele, dentro de seus pensamentos, seus sonhos. Você precisa voltar, voltar do coma. Acordar. Só assim, nosso mundo vai continuar existindo.

Olhei para meu corpo e vi que já não era mais Jonas Krane; estava com a mesma forma do corpo em coma.

– Veja… veja como eu sou. Você gosta do que vê?

– Eu te amo Jonas, pois sei como você é por dentro. Sei como pensa. É graças a você, que existo.

Eu me aproximo do corpo deitado e, antes de voltar do coma, olho para Jéssica. Ela sorri e diz:

– Estarei sempre com você. Nunca deixe de sonhar comigo.

18h00min – O jornal informa.
– O caminhoneiro que perdeu o controle do caminhão, por causa de um cachorrinho na estrada, sai do coma, depois de 15 dias. Em entrevista exclusiva, diz que irá fazer um livro, contando tudo sobre sua última missão.

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Sobre Carol Suiter

Apaixonada por ficção científica, fantasia e terror. Editora do ScifiBrasil desde 2001.

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